Author: gaviotabr (---)
Date: 03-03-12 16:47 PST
I'll post now in portuguese and then try to translate!
Ana, minha querida.
Dizem que o amor acaba. Que o amor termina. Mas não é a verdade. Nada acaba. Tudo dura, continua e transforma.
Enquanto
eu aguardava aquela cirurgia, mil anos se passaram. As duas estavam lá
dentro e eu pensava, se acontecer algo com as duas eu morro. Dizem que
passa um filme da nossa vida na nossa cabeça e por isso, eu vi. Vi vocês
duas meninas chegando à nossa casa. Vi nós três juntos ainda pequenos
em tantos e tantos momentos. Vi você erguendo taças, troféus. Tua imagem
na revista, inacessível. Distante da criança que eu era e que você era
também. Depois a nossa fuga de casa e o nosso medo e a nossa coragem. E o
salto sem rede que tantas vezes se chama amor. Vi você indo embora,
sendo levada, de diferentes formas, tantas e tantas vezes. E depois vi
você voltando e no fundo dos seus olhos, como num rio, tudo que a gente
não tinha vivido.
A partir daí eu me vi dividido entre dois amores,
entre duas vidas. Uma que eu tava vivendo e a outra que eu jamais tinha
podido viver. Durante os meus piores momentos enquanto eu aguardava
naquela sala, como se a doença da nossa filha tivesse me curado, eu
entendi que não tinha mais divisão nenhuma. O que tinha sido vivido, o
que tinha ficado pra trás. Tudo era parte de uma mesma história, de uma
mesma vida e de um mesmo sentimento: amor. E foi então que eu vi, nós
dois juntos, cruzando a fronteira.
De Ana para Rodrigo
Como se tivesse alcançado a
outra margem de um rio. O rio quando a gente se amou pela primeira vez,
o rio do meu acidente. Mas sempre um rio. E porque naquele momento eu
precisava ser forte, finalmente e sem escapes, eu consegui atravessar
aquele rio eterno, como se num instante eu tivesse vivido todos os anos
que ainda estavam parados em mim, me esperando. Do outro lado da
fronteira que sem perceber nós já tínhamos cruzado. Uma infância
compartilhada, uma adolescência trancada, uma juventude não vivida. Do
lado de cá dois adultos maduros finalmente libertos daquele fardo
pesado, feito de lembranças, de sonhos antigos. Por que há novos sonhos
do lado de cá da fronteira. E agora, podemos viver.
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